Na ponta da agulha
Quem gosta, gosta. É histórico isso. Um mísero arranhão já nos arrepia e pode comprometer a vida dele. Este é o sentimento de quem curte o famoso e memorável bolachão. Coleciono uns em casa e uma guarnição também: sonatas, som com aquelas caixas enormes e uma vitrola vermelha que se assemelha a uma mala.
A genética não perdoa ninguém. E esta minha paixão veio da minha ancestralidade. Desde criança, fui estimulada a apreciar aquele disco preto. Faço minha apologia aqui também às fitas K7, as famosas amarelinhas (não vou falar a marca, apesar de coçar para dizê-la. Nestas horas vejo o quanto um publicitário é um brandmaniac). Quando acontecia de um LP empenar, víamos a clássica e hilária cena: a pessoa carregando aquele famoso filtro de barro (que tinha uma massa considerável) para colocar em cima do vinil, fazendo uma pressão que gerava a ilusão de que ia desempenar o pretinho famoso. Eram muitas peripécias para salvar o disco sonoro de uma temida depreciação. Ah, não é apenas um disco preto. Nunca! É todo o composto: o saquinho que o envolve (que tem um cheiro característico), os encartes para acompanharmos as letras das músicas e as capas que piravam a cabeça de qualquer apaixonado por ele. Sem falar no valor agregado. E tudo se tornou uma linguagem. Quando chegávamos em uma festa com aquela raridade debaixo do braço causávamos frisson nos seres humanos. Quem nunca ouviu a típica frase: “Coloca a segunda faixa do lado A, por favor.”?
Um objeto de contemplação e a menina dos olhos dos que não deixam o passado musical se tornar, realmente, passado. Eles estarão em primeiro lugar nas paradas de sucesso. E, claro, sempre na ponta da agulha.
Vinismaníacos, uni-vos.




